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Mesa Redonda: Vestibular

Mesa redonda de discussão sobre a situação atual dos vestibulares, experiências alternativas e novas propostas de formato.
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terça-feira, julho 11, 2006

 

USP, vestibular e ensino

Prof. Dr. Daniel Victor Tausk
Professor Associado IME-USP.

Introdução.

Exporei nesse texto uma série de argumentos e considerações a respeito de questões ligadas ao processo seletivo para alunos ingressantes na USP. Devo mencionar que boa parte das afirmações feitas no texto não são embasadas por experimentos científicos, mas refletem apenas minhas opiniões e a visão sobre o assunto que adquiri através de minhas experiências pessoais. Considero, no entanto, que a forma sistemática como organizei as idéias no texto sejam úteis para a discussão e possam indicar idéias para a realização de experimentos que possam eventualmente vir a embasar de forma mais rigorosa muitas das afirmações feitas no texto.

Proponho que nossas reflexões sobre o vestibular que seleciona os alunos ingressantes para a USP sejam divididas em duas partes:

(1) a análise da eficiência com que o vestibular seleciona os alunos que queremos selecionar para os cursos da USP;
(2) a forma como o vestibular influencia os ensinos fundamental e médio.

Muitos dos docentes que ministram cursos de graduação na USP demonstram descontentamento (em grau maior ou menor) com algumas das características de seus alunos (tais como falta de pré-requisitos para assimilar o conteúdo das disciplinas de graduação, baixa capacidade de raciocínio, pouca vontade de aprender, pouca dedicação ao curso, etc); esclareço ao leitor que sou um dos descontentes com respeito a algumas dessas características dos nossos alunos ingressantes. Enquanto seria natural manifestar esse descontentamento apontando a culpa para o vestibular, observo que a questão deve ser analisada mais a fundo antes de se chegar a conclusões. Listo abaixo algumas daquelas que poderiam ser as causas do problema em questão:

(a) alunos com as características que desejamos não existem em quantidades significativas (a ponto de, digamos, preencher as vagas de nossos cursos);
(b) alunos com as características desejadas existem em quantidades significativas, mas os mesmos não estão interessados em estudar na USP;
(c) alunos com as características desejadas existem em quantidades significativas e querem estudar na USP, mas nosso vestibular está deixando-os de fora (selecionando para nossos cursos aqueles que não possuem as características desejadas).

Observo que não estou dizendo que uma e somente uma das alternativas (a), (b) e (c) corresponde à realidade; é bem possível que a realidade seja melhor refletida por alguma combinação das alternativas (a), (b) e (c). Passemos a uma análise de tais alternativas.

Caso a alternativa (c) seja a mais próxima de refletir a realidade, então certamente a culpa deve ser apontada para nosso vestibular e a eficiência do mesmo mencionada no item (1) acima é muito pequena. Porém, caso a alternativa (c) não corresponda à realidade então devemos olhar para as alternativas (a) e (b), o que nos levaria a apontar a culpa para outras direções; além do mais, a busca de soluções para o problema não envolveria mudanças no vestibular. Por exemplo, caso a alternativa (b) seja verdadeira, então uma solução para o problema envolveria a criação de incentivos para que tais alunos adquiram interesse em estudar na USP. Caso a alternativa (a) seja verdadeira, então outro leque de opções é aberto:

(a1) os ensinos fundamental e médio não estão formando alunos da forma que deveriam, de modo a criar alunos com as características que desejamos em quantidades significativas;

(a2) as características que esperamos dos nossos alunos não são realistas.

Pessoalmente, acredito que a alternativa (a) e a subalternativa (a1) são as mais próximas de refletirem a realidade. A USP é uma universidade de grande prestígio no Brasil. Embora devam existir alguns grandes jovens intelectos que não estão interessados em estudar na USP (prefiram estudar em outras boas universidades brasileiras ou no estrangeiro), duvido seriamente que esse efeito seja significativo. Excluo então a alternativa (b). Custo também a acreditar que a alternativa (c) seja correta, o que será melhor justificado mais adiante no texto, na seção 1.

Foquemos então por um momento nossa discussão na alternativa (a). Embora eu admita que a subalternativa (a2) possa ser parcialmente verdadeira, tendo a duvidar que nossas expectativas sobre os alunos sejam tão irrealistas assim. Creio então que a subalternativa (a1) seja a principal causa do problema. Isso nos leva a apontar a culpa para os ensinos fundamental e médio. Voltaremos a essa questão mais adiante, na seção 2.

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Seção 1. a análise da eficiência com que o vestibular seleciona os alunos que queremos selecionar para os cursos da USP

Antes de começar tal análise, evidentemente devemos perguntar: "que alunos queremos selecionar para os cursos da USP?". A resposta que me parece mais razoável é: "aqueles que terão melhor desempenho nos cursos da USP" (caberia aqui a questão sobre se mudanças nos cursos da USP seriam desejáveis; no entanto, para fixar as idéias, suporei um cenário em que tais mudanças não serão consideradas). Essa primeira questão que estou colocando poderia parecer um tanto trivial para alguns, mas é bom observar que imbutidas nela estão as discussões relativas a cotas, ações afirmativas e questões sobre inclusão social em geral.

A idéia de admitir para a USP alunos que não tenham nenhuma condição de ter bom desempenho nos cursos da USP me parece insana e/ou irresponsável. Não sei se haveria alguém que gostaria de seriamente tentar defender uma idéia desse tipo. Por outro lado, se colocamos questões de inclusão social entre nossas metas, então faria sentido defender que devamos admitir alunos cujo desempenho na USP não será tão bom (deixando de fora então alunos que poderiam ter um desempenho melhor). Uma defesa racional desse tipo de política de ação afirmativa passaria por uma análise do tipo "preço a pagar"/"vantagens correspondentes". O "preço a pagar" por uma política desse tipo seria a de não termos na USP alunos tão bons quanto poderíamos ter sem essa política; a "vantagem correspondente" seria algum efeito positivo para a sociedade causado pela inclusão social. Eu acredito que tais políticas de ação afirmativa sejam inadequadas na seleção dos alunos para a USP pelas seguintes razões:

(i) o efeito positivo de inclusão social causado por uma política responsável de ação afirmativa (responsável no sentido que não permite alunos muito fracos na USP) seria ínfimo para a sociedade;

(ii) é possível obter as vantagens sem pagar o preço. A USP é uma universidade de pesquisa e tem como papel formar a elite intelectual do país. Diversas outras estratégias para promover inclusão social podem ser elaboradas que nos permitam continuar selecionando apenas os mais preparados para a USP. Entre essas estratégias, incluem-se: (ii.1) criação de outros tipos de curso superior que possam abrigar alunos que não são tão bem preparados; (ii.2) melhorar a qualidade do ensino fundamental e médio público; (ii.3) selecionar os melhores alunos das escolas públicas e dar a eles bolsas para estudar em boas escolas.

Para quem gosta de analogias futebolísticas: se fossem propostos critérios de escolha para os jogadores que participam da seleção brasileira de futebol que não fossem estritamente ligados ao possível desempenho nos jogos, nossa população ficaria tão descontente que teríamos algo próximo de uma guerra civil. Mas na hora de escolher os estudantes que formarão a "seleção brasileira" do mundo acadêmico, aparentemente não gera tanto descontentamento o fato de critérios não ligados ao mérito acadêmico serem usados para seleção. Isso me parece uma grande distorção.

No que segue, assumirei como premissa que os alunos que desejamos selecionar para a USP são aqueles que terão o melhor desempenho possível nos cursos da USP. Passemos então a analisar a eficiência com que o vestibular seleciona os alunos. Uma análise dessa questão poderia ser feita de forma completamente objetiva usando ferramentas estatísticas para analisar a correlação entre o desempenho dos alunos na FUVEST e o desempenho dos mesmos na USP. Não tenho posse no momento dos dados necessários para fazer uma análise nesse nível de profundidade. Farei então apenas uma análise mais superficial, baseada nas minhas experiências pessoais.

Acredito que exista uma correlação positiva muito alta (porém não perfeita) entre o desempenho de alunos na FUVEST a nos cursos da USP. Observem que, no mínimo, uma negação radical dessa última afirmação implicaria em conclusões um tanto estranhas, a saber: muitos dos melhores alunos que completam o ensino médio na cidade de São Paulo não consegueriam passar na FUVEST e estariam portanto estudando em outras faculdades existentes na cidade de São Paulo. Ora, mantendo conversas com professores de algumas faculdades particulares existentes na cidade de São Paulo, descobre-se que em algumas dessas faculdades pode-se encontrar alunos tão fracos que deixariam os docentes acostumados aos alunos da USP de cabelo em pé. Se não é o vestibular que está sendo bem-sucedido nesse processo de seleção, o que explicaria o fato de alunos da USP serem tão mais bem preparados do que os alunos de tais faculdades? Duvido que seja o ar do nosso campus.

Mas nosso vestibular não pode ser aperfeiçoado? Claro que pode. Proponho algumas direções em que tais aperfeiçoamentos podem ser feitos:

(a) quando elaboramos uma prova para medir determinados tipos de conhecimento e de capacidade de um dado grupo de alunos, devemos levar em conta que muitos alunos podem decidir treinar especificamente para ter um bom desempenho na prova, em vez de se dedicar a adquirir o tipo de conhecimento e capacidade que a prova pretende medir. No caso específico do vestibular, muitos cursinhos pré-vestibular focam todo o esforço em treinar os alunos para o vestibular e não em ensinar o conteúdo que o vestibular pretende medir (não menciono isso como uma crítica aos cursinhos, afinal os alunos pagam os mesmos esperando obter exatamente esse tipo de serviço). É dever dos que elaboram as provas do vestibular tentar ao máximo driblar aqueles alunos que estão se preparando especificamente apenas para um dado tipo de prova e não se preocupam em realmente adquirir conhecimento.

(b) Cursos diferentes podem demandar alunos com conhecimentos e capacidades diferentes. Deveria se olhar mais de perto para as necessidades específicas de cada curso, mantendo um diálogo constante com as unidades responsáveis pelos cursos. Já existem no momento diferenças nas provas da segunda fase da FUVEST e algumas provas de aptidação específicas na seleção para certos cursos. Talvez mais diferenças e mais provas de aptidão específica sejam necessárias nos processos seletivos para os diferentes cursos da USP.

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Seção 2. os ensinos fundamental e médio e a forma como o vestibular os influencia.

Atenção: está seção contém algumas afirmações fortes que podem gerar bastante descontentamento entre alguns leitores. No entanto, considero crucial para a melhora do nosso ensino que opiniões como as que exponho abaixo sejam tornadas públicas.

Preocupa-me bastante a forma como os ensinos fundamental e médio tem sido conduzidos no nosso país. Não apenas em pequenas escolas públicas de periferia, que enfrentam problemas básicos de infra-estrutura, mas também nas escolas particulares freqüentadas pela elite. Felizmente, não sou o único a me preocupar, porém, infelizmente, a sociedade está longe de manifestar o nível de preocupação com o assunto que deveria. O desempenho desastroso do Brasil em exames como o Pisa deveria servir como sinal de alerta. O problema com a educação brasileira não está apenas na falta de investimento, mas também no fato de termos delegado a responsabilidade sobre os ensinos fundamental e médio a profissionais que muitas vezes determinam estratégias educacionais a partir de idéias dogmáticas, em vez de estratégias mais racionais e científicas. No mínimo, há algo estranho no fato de que não existe uma boa harmonia de trabalho entre os teóricos do ensino e da educação e os cientistas e pesquisadores que de fato detém o conhecimento sobre os assuntos que serão ensinados. Muito pelo contrário: alguns teóricos da educação chegam a insinuar que tais cientistas atrapalham a educação com suas visões "conteudistas" do ensino.

Construtivismo é a última moda e não importa se não funcionar na prática. É o dogma do momento. Conteúdo está fora de moda. Avaliação é uma coisa careta. Cito aqui a título de exemplo um dogma popular entre alguns teóricos da educação que me parece completamente insano: "todos os seres humanos têm exatamente a mesma capacidade de aprendizado e para todos eles as mesmas técnicas de ensino devem ser aplicadas". As pessoas têm alturas diferentes, pesos diferentes, metabolismos diferentes, resistências físicas diferentes, mas o intelecto é exatamente igual para todos. Brilhante. Qualquer pessoa que já deu aulas deve ter percebido que alguns alunos tem mais facilidade (ou dificuldade) de aprender do que os outros e que alguns alunos aprendem melhor quando se explica de um jeito e outros aprendem melhor quando se explica de outro. Mas, para alguns teóricos do ensino, todos tem exatamente a mesma capacidade de aprendizado e todos aprendem exatamente da mesma forma. Durma-se com um barulho desses.

Parece-me que o vestibular da FUVEST é um dos poucos sistemas de avaliação no Brasil que resiste à influência das seitas pedagógicas. Vejam o ENEM, por exemplo: boa parte de suas questões são nada mais que trivialidades com uma roupagem politicamente correta. Pouca avaliação de conteúdo e conhecimento (e, ao contrário do que alguns diriam, essa redução na quantidade de conhecimento necessário para fazer a prova não está nem de longe sendo compensada por um aumento na quantidade de raciocínio necessário para fazê-la).

A USP e seu vestibular devem funcionar como luzes na escuridão que se encontra o ensino fundamental e médio brasileiro, resistindo à influência negativa proporcionada pelas seitas pedagógicas anti-conteúdo. Infelizmente, existe uma possibilidade de ocorrer agora exatamente o oposto: as últimas luzes que iluminam a ciência brasileira podem ser apagadas, deixando-nos na total escuridão.

Biografia Acadêmica: Ensino fundamental e médio no Colégio Dante Alighieri (completo em 1992); Bacharelado em Matemática no IME-USP (1996); Mestrado em Matemática no IME-USP (1998); Doutorado em Matemática no IME-USP (2000); Professor do Departamento de Matemática do IME-USP (2001); Livre-Docência (2005).

Comments:
Daniel,
Todo ano, nas minhas disciplinas na USP, eu tenho um aluno da Africa, vindo por convenio (São Tomé e Principe, Angola, etc). Obviamente tais alunos nao fazem a Fuvest para entrar.

Qual sua opiniao sobre tais convenios? Isso é um tipo de cota?
 
Precisaria saber qual o critério usado para decidir quais alunos do outro país vão poder vir estudar aqui através do convênio (há uma prova? uma entrevista? feita por quem?). Se o critério de seleção for meritório, não pode ser considerado uma cota. Mas note também que o número de alunos que entra na USP por esse tipo de convênio é bem reduzido, então não faz tanta diferença.
 
O Prof. Daniel Tausk estará em viagem no periodo de 16-21 de julho. Respostas a comentarios serão colocadas na medida do possivel, em princípio após este periodo.
 
Achei essa parte curiosa:

(ii) é possível obter as vantagens sem pagar o preço. A USP é uma universidade de pesquisa e tem como papel formar a elite intelectual do país. Diversas outras estratégias para promover inclusão social podem ser elaboradas que nos permitam continuar selecionando apenas os mais preparados para a USP. Entre essas estratégias, incluem-se: (ii.1) criação de outros tipos de curso superior que possam abrigar alunos que não são tão bem preparados; (ii.2) melhorar a qualidade do ensino fundamental e médio público; (ii.3) selecionar os melhores alunos das escolas públicas e dar a eles bolsas para estudar em boas escolas.

Bom, nesse caso o que se está fazendo é novamente selecionar apenas um grupo muito restrito de alunos e os premiando (como quando a globo ou qualquer outra rede cita um cidadão na favela que conseguiu estudar, se desenvolver, sair daquela condição e usam esse cidadão como modelo, exemplo). Esse pessoal que é de esquerda mesmo detesta o mérito e esse tipo de diferenciação. Na verdade eles têm uma confusão mental muito grande e depois já não sabem mais o que afinal desejam. Umas horas falam que deve-se sim avaliar a capacidade, outras já acham que todos devem entrar na universidade. Quer ver quando ouvem essa frase "a USP tem o papel de formar a elite cultural do país", meu deus, já vejo o pessoal da esquerda dando pulos. No fundo o pessoal de esquerda ideologiza excessivamente o debate e não deixa claro no que acredita realmente.

Achei fraca essa analogia com o futebol. Não são os melhores que são escolhidos. Os critérios são muito elásticos e dependem muito do que o técnico está avaliando, ou usando como critério de escolha. A escolha não é feita de forma científica. Mesmo porque o futebol não se pauta pela ciência. Um jogador com excelente desempenho numa temporada, ou num campeonato, pode não ter o mesmo desempenho num outro campeonato, ou equipe. Um jogador que pode jogar muito bem num clube, pode jogar de maneira péssima na seleção. Veja-se o caso de que praticamente nenhum jogador tem o mesmo desempenho nos jogos da seleção que tem em seus clubes. Portanto o critério de adaptabilidade do jogador deveria contar muito. Sua capacidade de rapidamente entrar em sintonia com outros jogadores, sem muitos treinos, e conseguindo se adaptar a um esquema técnico que ele não está acostumado. Isso não deveria ser levado em conta também pelo treinador?! Deveria, mas não é. Paciência. Mais uma prova da irracionalidade da coisa. E nem por isso temos uma guerra civil, mesmo porque a população nem pára pra analisar o futebol dessa forma.

Se ele tivesse comparado com o método que os olheiros usam para selecionar meninos com forte potencial, ok. Aí quem sabe. Ainda assim os critérios são sempre complicados. Às vezes são selecionados por um jogo. Ou por dois jogos, porque é inviável observar jogos e mais jogos, já que há tantos interessados. Novamente se vê uma grande irracionalidade aí. E se vai chegando a conclusão que todo método de escolha é problemático, não é perfeito. Existem métodos e métodos de escolha, obviamente que uns são melhores do que os outros. Resta que façamos uma análise dos métodos disponíveis e cheguemos a conclusão de que método desejamos, que método achamos melhor. Essa escolha é muito mais política do que estritamente científica. A ciência dá os dados, faz comparações, resultados, etc e a escolha fica por nossa conta. A escolha de que critérios queremos assumir para selecionar os futuros estudantes, futuros profissionais.

Cordialmente,

Daniel Brisolara
daniel.nome@gmail.com
 
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