Mesa redonda de discussão sobre a situação atual dos vestibulares, experiências alternativas e novas propostas de formato.

Prof. Dr. José Roberto Castilho Piqueira
Professor titular - USP
É uma questão recorrente na sociedade brasileira a associação que se faz entre grau de escolaridade e inclusão social, apesar de termos um Presidente de pouca cultura formal. Confunde-se, por falta de raciocínio científico mínimo, correlação com causalidade.
Não freqüentar uma universidade, qualquer que seja ela, não causa exclusão social e freqüenta-la, não necessariamente inclui a pessoa na engrenagem em movimento do mundo globalizado. Lula, Ronaldinho, Roberto Carlos (ambos) são muito mais inseridos socialmente do que qualquer professor do ensino médio ou fundamental, da rede pública.
E é justamente disso que quero falar. A Universidade pública brasileira possui recursos limitados e nosso país, sabidamente, é carente. Entretanto, a Universidade pública brasileira, com todos os percalços e com todas as atitudes no sentido de prejudica-la, amplamente conhecidas, resiste e é um dos orgulhos da sociedade brasileira, pelo patrimônio intelectual e científico que representa.
Como usar esses recursos limitados? Da maneira menos dispendiosa possível. Com alunos preparados a freqüentar os cursos escolhidos, com pouca evasão e com pouca reprovação, não por baixa exigência, mas por alta qualidade de ensino e de aproveitamento. Como selecionar esses alunos, então? Pelas suas qualidades intelectuais e psicológicas, da maneira mais justa e democrática possível. Criar regras casuísticas e atalhos parece preguiçoso e irresponsável.
O argumento de quem defende esse tipo de posição é que os pobres não têm boa escola, pois a escola pública é de má qualidade. Vejam a incoerência: os homens públicos, escolhidos pela sociedade para defende-la, admitem que a escola pública de ensino fundamental e médio é ruim e não se propõem a melhora-la. Melhor a demagogia de transmitir a impressão que isso é responsabilidade da Universidade pública.
Sou de uma geração que estudou na escola pública desde os seis anos de idade. O bem público me é familiar desde o primeiro dia que fui ao Grupo Escolar. No primário, no ginásio e no científico tive colegas pobres, remediados e ricos, brancos, negros e amarelos. Filhos de operários, ferroviários, médicos, engenheiros e pastores protestantes. Tudo se mesclava em uma escola gratuita e o que valia era a competência.
No ginásio, fui colega de gente morta pelo regime militar e de algumas pessoas cujo reacionarismo faria a extrema direita parecer comunista. Não tinha problema, estudávamos juntos, aprendíamos junto, jogávamos futebol juntos. Era a escola que incluía.
A Lei das Diretrizes e Bases, o pedagogismo que tomou conta da escola pública de ensino fundamental/médio e, principalmente o desrespeito à condição de professor levaram a escola pública ao estágio em que está.
Que estou propondo para a inclusão social? A recuperação das escolas públicas de ensino fundamental e médio. Não é recuperar prédios ou comprar computadores. É melhorar o salário dos professores e sua condição social. Assim, e só assim, serão atraídos bons e motivados profissionais para o exercício do ensino público.
Acredito no compromisso de ensinar a cada garoto que vai à escola a importância do bem público e como ele, com auto-estima e vontade, pode aproveitar o que o Estado lhe proporciona, para seu progresso pessoal. Alguns entrarão na Universidade pública, outros na Universidade privada, outros no mercado de trabalho, após o ensino médio.
Entretanto, resgatar-se-á a dignidade do ser humano e das crianças das camadas sociais mais baixas, que terão opções de inclusão sem passar pelo futebol ou pelo tráfico de drogas.
Confundir essa questão tão ampla e tão importante com algo tão restrito como o vestibular da USP é ignorar, conscientemente ou não, que o Brasil, a partir de 1968 jogou a educação pública no lixo. Nenhuma sociedade faz isso impunemente.