Mesa redonda de discussão sobre a situação atual dos vestibulares, experiências alternativas e novas propostas de formato.

Prof. Dr. Marcelo Henrique Romano Tragtenberg
Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina
Grupos de Trabalho de Etnia, Gênero e Classe da APUFSC e ANDES-SN
Membro da Comissão da UFSC que discute ações afirmativas para acesso e permanência de índios, negros e estudantes de escolas públicas.
Na grande maioria dos cursos das Universidades Públicas é preciso selecionar os alunos, pois há vagas insuficientes. É preciso no entanto que haja objetivos claros nesse processo seletivo.Se os objetivos na seleção dos alunos forem:
(a) ter alunos com capacidade de realizar com mérito seus estudos;
(b) corpo discente com diversidade socioeconômica e étnico-racial;
(c) formar profissionais com várias origem socioeconômicas (permitindo maior igualdade de oportunidades) e vários perfis étnico-raciais, o vestibular tomado isoladamente isoladamente é uma ferramenta ineficaz.
Nos cursos mais concorridos principalmente há poucos alunos de baixa renda, negros e indígenas. Nos outros cursos é comum baixa proporção de alunos negros e indígenas. Vários estudos já mostraram que as notas do vestibular não correspondem ao desempenho dos alunos
ao longo do curso.
A comissão de vestibular da UNICAMP mostrou que os alunos da rede pública tem notas melhores que os da rede privada e por isso implantou um programa de ação afirmativa com pontos extras para egressos do ensino médio público que seriam em quantidade 1/3 maior no caso de serem negros ou indígenas. O relatório do primeiro ano dessa experiência mostrou que em 31 dos 56 cursos, já no primeiro semestre, os alunos tiveram nota média superior aos alunos do vestibular tradicional.
Estudo da UFRJ publicado na Ciência Hoje de janeiro de 2005 mostrou que a nota no vestibular não tem relação determinante na nota dos alunos nos cursos de graduação. Além disso, mostrou que a redução da nota de corte no caso de reserva de 20% das vagas para alunos de escolas públicas em cursos concorridos seria de cerca de 2 a 3%! Este estudo da UFRJ não pode ser realizado noaspecto étnico-racial pois a UFRJ não possuia o quesito cor-raça no formulário do vestibular!
Lamentavelmente a diversidade étnico-racial e socioeconômica não são ainda objetivos de várias universidades brasileiras. Por outro lado, não para de crescer o número de universidades públicas com cotas ou pontuação extra para estudantes oriundos de escolas públicas, negros e indígenas, hoje já na casa das trinta.
Estudo aceito para publicação nos Cadernos de Pesquisa de março/agôsto e realizado por nós em colaboração com João Luiz D. Bastos, Lincon Nomura e Marco A. Peres concluiu que duplicar vagas na UFSC não modifica o perfil socioeconômico e étnico-racial da instituição. E que se for instituída reserva de 50% das vagas para egressos do ensino médio público o percentual de estudantes negros não mudaria! Isso é coerente com a idéia que o racismo e a exclusão de negros se dá tanto na escola básica pública como a privada.
Se se pretende uma formação com diversidade para egressos que atuarão numa sociedade diversa, é preciso promover essa diversidade com medidas de ação afirmativa no ingresso de estudantes de baixa renda, negros e indígenas às Universidades públicas, sejam elas cotas ou pontuação extra. Por outro lado, qualquer programa de combate ao racismo e suas consequências no Brasil precisa assumir essa luta no interior da Universidade Pública não só no acesso e permanência de negros e indígenas, como na reformulação do conteúdo de forte conotação eurocêntrica.
Para que a sociedade seja mais diversa é fundamental a formação superior de mais pessoas negras e indígenas. Nosso percentual de negros formados é semelhante ao da África do Sul da época do apartheid e dos EUA segregacionista, além de ser cerca de 1/4 da população branca brasileria. Somos herdeiros desta herança terrível. Vamos ser conivente com ela? Recentemente o país viu a manifestação de parcela da comunidade acadêmica e alguns representantes negros contra o Projeto de Lei de Cotas e o Estatuto da Igualdade Racial. Outra parcela da comunidade acadêmica e grande parte do Movimento Negro se colocaram a favor destes projetos de lei.
Gostaria de mencionar apenas um aspecto curioso e para mim bastante revelador do manifesto dos contra cotas e Estatuto da Igualdade racial: ele só foi organizado para impedir as cotas nas Universidades Públicas. Quanto da aprovação do PROUNI não houve tal manifesto. Quando se tratava de abrir vagas em Universidades Particulares em geral com menor qualidade que as públicas, houve silêncio. Mas no momento de abrir as oportunidades melhores da sociedade brasileira no Ensino Superior, há um protesto veemente. Neste momento, questiona-se a idéia de raça, e que essas medidas podem gerar racismo.
Curiosa hipocrisia: silêncio quando as piores vagas vão para negros e indígenas, e protesto quando pequena parte das melhores vão para esses grupos. Não seria esta uma marca de um neo-racismo, que só evoca o fim da noção de raça na hora de combater os efeitos da discriminação racial?
Biografia acadêmica: Bacharel e Licenciado, Mestre e Doutor em Física pelo Instituto de Física da USP, com estágio de pós-doutorado no Departamento de Física da Universidade de Oxford/Inglaterra. Professor do Departamento de Física da UFSC. Membro dos Grupos de Trabalho de Etnia, Gênero e Classe da Associação dos Professores da UFSC e do ANDES-SN. E-mail:
marcelo@fisica.ufsc.br